A Unilever iniciou o ano de 2026 demonstrando resiliência operacional e uma importante mudança qualitativa em seus vetores de receita. No primeiro trimestre de 2026, a companhia reportou um crescimento nas vendas subjacentes (Underlying Sales Growth - USG) de 3,8% na comparação interanual.
O principal destaque desse desempenho foi o avanço de 2,9% no volume de vendas subjacentes (Underlying Volume Growth - UVG), superando as médias recentes do mercado de bens de consumo, enquanto o repasse de preços (Underlying Price Growth - UPG) contribuiu de forma mais tímida, com alta de 0,9%. Esse arranjo indica que a estratégia da gestão em focar no ganho de escala e na recuperação de volume está gerando tração, reduzindo a dependência histórica exclusiva do reajuste inflacionário de preços.
Em termos absolutos, o faturamento total (turnover) reportado pela companhia atingiu € 12,6 bilhões de euros, o equivalente a aproximadamente US$ 13,67 bilhões de dólares no período. Esse montante representa uma retração nominal de 3,3% em relação ao primeiro trimestre de 2025. O recuo nominal, contudo, não reflete a saúde operacional do negócio, uma vez que foi severamente impactado por ventos contrários cambiais (currency headwinds), os quais geraram um impacto negativo de 7,7% na conversão de moedas para o balanço consolidado. Por outro lado, as aquisições líquidas de desinvestimentos atenuaram parcialmente essa variação, adicionando 0,9% ao resultado final de receita.
A análise por divisões de negócios demonstra um crescimento pulverizado, liderado pelas chamadas Power Brands — o grupo de marcas principais da companhia que responde por cerca de 78% do faturamento total, incluindo Dove, Vaseline e Hellmann’s. Esse segmento de alta prioridade registrou uma expansão expressiva de 5,0% em vendas subjacentes, impulsionada por uma alta de 4,0% em volume. Na quebra das verticais, a divisão de Home Care (Cuidados para a Casa) foi o grande destaque do trimestre com um avanço de 6,1% em vendas e 6,2% em volume, impulsionada pela forte demanda por produtos de limpeza líquidos e em pó em mercados emergentes como o Brasil e a Índia.
As divisões voltadas aos cuidados pessoais e bem-estar também entregaram expansões sólidas, mitigando desacelerações geográficas pontuais. O segmento de Personal Care avançou 3,7% em termos subjacentes, com suporte do crescimento de duplo dígito na linha de desodorantes da marca Dove, que se beneficiou de inovações de categoria premium. Já a divisão de Beauty & Wellbeing reportou crescimento de 3,6% em vendas subjacentes e 1,9% em volume. Nesse setor, as marcas de prestígio como K18, Hourglass e Tatcha mantiveram forte momentum de volume, compensando a performance mais amena e o processo de desinvestimento de marcas capilares menos rentáveis nos Estados Unidos.
A vertical de Foods (Alimentos), por sua vez, registrou um avanço de 2,2% nas vendas subjacentes e 2,4% em volume, sustentada pela marca Hellmann’s e pela recuperação sequencial das soluções para canais corporativos (Unilever Food Solutions). No âmbito estratégico, a gestão confirmou o avanço do processo de combinação operacional de sua divisão de alimentos com a McCormick, movimento que visa otimizar a estrutura de capital e focar o portfólio remanescente da Unilever em categorias de maior margem e recorrência de consumo. Adicionalmente, foram concluídas as vendas do negócio de chás na Indonésia e da fatia de 61,9% na Kwality Wall's na Índia.
Do ponto de vista regional, o crescimento da multinacional foi majoritariamente sustentado pelo forte dinamismo dos mercados emergentes, que registraram uma aceleração no volume de 4,2%. A região da Ásia, Pacífico e África cresceu 5,9% em vendas subjacentes, puxada por uma aceleração de 7,0% no mercado indiano. As Américas registraram alta de 3,7% no indicador subjacente, com o Brasil apresentando expansão de duplo dígito em volumes na divisão de cuidados para o lar. Em contrapartida, a Europa permaneceu como o elo de fraqueza geográfica, registrando uma retração de 0,9% nas vendas e queda de 1,2% em volumes, refletindo um ambiente macroeconômico ainda pressionado e a postura mais austera do consumidor local.
Embora a companhia não divulgue o balanço completo de lucros e fluxos de caixa no formato de Trading Statement do primeiro trimestre, a gestão reportou avanços contundentes em seu programa de produtividade e eficiência estrutural lançado em 2024. A Unilever capturou € 750 milhões de euros (aproximadamente US$ 813,7 milhões de dólares) em economias acumuladas até o encerramento do trimestre, caminhando à frente do cronograma original, que projeta € 800 milhões de euros em eficiências totais até o final de 2026. Esse controle rígido de custos operacionais tem sido peça fundamental para sustentar as margens operacionais frente à volatilidade das commodities.
Como pontos de atenção e riscos para os próximos trimestres, o direcionamento financeiro destacou o surgimento de pressões adicionais na cadeia de suprimentos global, sobretudo nos custos de logística e manufatura decorrentes de tensões geopolíticas no Oriente Médio. Em função desse cenário, a diretoria financeira revisou suas projeções, alertando para uma aceleração na inflação de custos de insumos na segunda metade do ano. Outro ponto que demanda monitoramento do analista é a desaceleração do segmento de Wellbeing (Bem-estar) no trimestre, que recuou um dígito baixo devido a uma base de comparação muito forte em relação ao mesmo período do ano anterior.
Em termos de alocação de capital e remuneração ao acionista, o conselho de administração deliberou positivamente ao iniciar um novo programa de recompra de ações no montante de € 1,5 bilhão de euros (cerca de US$ 1,63 bilhão de dólares), com previsão de encerramento para julho de 2026. Adicionalmente, o dividendo trimestral distribuído foi fixado em € 0,4664 por ação ordinária, representando um incremento de 3,0% na comparação com o primeiro trimestre de 2025. Esses movimentos sinalizam a confiança da administração na forte geração de caixa livre recorrente e na solidez do balanço patrimonial.
Conclusão do analista
A Unilever é uma empresa tradicional e sólida, com diferenciais competitivos, mas que dificilmente crescerá de forma relevante o seu valor de mercado. Apesar de ter sofrido queda de receitas na última década, seus lucros permaneceram estáveis e sua geração de caixa livre aumentou. Ponderando os pontos positivos e negativos da companhia, recomendamos a compra das ações da Unilever (ULEV34) para quem busca empresas mais previsíveis e pagadoras de dividendos.