A Starbucks encerrou o quarto trimestre de seu ano fiscal de 2025 (4T25) apresentando sinais mistos que refletem o estágio inicial de seu plano de revitalização, intitulado Back to Starbucks. Sob a nova gestão de Brian Niccol, a companhia reportou uma receita líquida recorde de US$ 9,6 bilhões, o que representa um crescimento de 5% em relação ao mesmo período do ano anterior. Esse avanço foi impulsionado, principalmente, pela retomada do crescimento nas vendas globais comparáveis (same-store sales), que subiram 1% após sete trimestres consecutivos de estagnação ou declínio, sinalizando uma recepção positiva das novas estratégias operacionais.
No âmbito operacional, o desempenho foi sustentado por um aumento de 1% nas transações globais. No mercado da América do Norte, as vendas comparáveis ficaram estáveis (0%), um avanço significativo frente à queda de 6% observada no 4T24. O destaque positivo veio do segmento Internacional, com alta de 3% nas vendas comparáveis, impulsionado por um crescimento de 6% no volume de transações, embora parcialmente compensado por uma redução de 3% no ticket médio. Na China, o volume de transações saltou 9%, resultando em um crescimento de 2% nas vendas comparáveis, revertendo a tendência de forte queda do ano anterior.
Apesar da resiliência do faturamento, os indicadores de rentabilidade sofreram forte pressão no trimestre. O lucro líquido reportado foi de US$ 133,1 milhões, uma retração acentuada de 85,4% na comparação anual. O lucro por ação (EPS) GAAP atingiu US$ 0,12, enquanto o EPS ajustado (non-GAAP) foi de US$ 0,52, ficando abaixo das expectativas de mercado de US$ 0,56. Essa disparidade reflete os custos extraordinários associados ao plano de reestruturação de US$ 1 bilhão, que incluiu o fechamento líquido de 107 lojas e o desligamento de pessoal administrativo para simplificar a estrutura de suporte.
As margens operacionais foram o principal ponto de atenção negativa nos dados financeiros. A margem operacional GAAP contraiu 1.150 pontos-base, situando-se em 2,9%, enquanto a margem ajustada recuou para 9,4%. Essa compressão é justificada não apenas pelos custos de reestruturação, mas também por investimentos deliberados em horas de trabalho para os parceiros (baristas) e aumentos salariais, visando melhorar a eficiência do atendimento e a experiência do cliente. Adicionalmente, pressões inflacionárias nos custos de insumos e uma maior atividade promocional nos mercados internacionais contribuíram para a queda da rentabilidade.
Em termos de investimentos e movimentações estratégicas, a Starbucks anunciou uma mudança estrutural relevante em sua operação na China. A companhia firmou uma joint venture com a Boyu Capital, vendendo uma participação majoritária de seu negócio na região por US$ 4 bilhões. Com isso, a Starbucks mantém 40% de participação, permitindo uma expansão mais ágil e capitalizada no mercado chinês através de um modelo de licenciamento, ao mesmo tempo em que reduz sua exposição direta aos riscos operacionais e geopolíticos locais.
A estratégia de capital da empresa também priorizou a eficiência da rede. O encerramento do trimestre com 40.990 lojas reflete o esforço de otimização do portfólio, com foco especial na América do Norte, onde ocorreu a maior parte das rescisões de contratos de aluguel de unidades subperformantes. Por outro lado, o programa de fidelidade Starbucks Rewards continuou a se expandir, atingindo 34,2 milhões de membros ativos nos Estados Unidos, um crescimento de 1% que reforça a base de clientes recorrentes e o potencial de engajamento digital.
A avaliação do resultado aponta para um trimestre de limpeza de balanço e transição. Embora o lucro tenha decepcionado, a retomada do fluxo de clientes e o crescimento das receitas indicam que os fundamentos do negócio estão sendo estabilizados. A decisão de sacrificar margens de curto prazo em prol de investimentos na operação de loja e na redução do tempo de espera é vista como um passo necessário para recuperar o valor da marca e a fidelidade do consumidor, que haviam sido degradados por processos excessivamente transacionais.
Para o futuro, a perspectiva é moderadamente otimista, fundamentada no novo guia fiscal para 2026. A gestão projeta um crescimento de vendas comparáveis de 3% ou mais e uma leve melhora nas margens operacionais à medida que os custos de reestruturação fiquem para trás. O foco na simplificação do menu (com redução de até 30% dos itens) e na implementação de tecnologias de automação nas lojas deve atuar como o próximo catalisador para a recuperação da alavancagem operacional e expansão do lucro por ação.
Os principais pontos de atenção residem na execução da estratégia na China sob o novo modelo de parceria e na capacidade de sustentar o crescimento de transações nos Estados Unidos sem depender de promoções agressivas. A volatilidade nos preços das commodities de café e a persistência da inflação salarial continuam sendo riscos latentes.
Conclusão do analista
Embora a Starbucks enfrente desafios significativos, seu modelo de negócios permanece interessante, oferecendo diferenciais competitivos relevantes que sustentam o desempenho da companhia no longo prazo. Com base no valuation calculado, o preço atual das ações reflete uma margem de segurança para investidores, desde que haja um acompanhamento atento das iniciativas da empresa para enfrentar esses obstáculos. Desta forma, temos a recomendação de compra das ações da Starbucks (SBUX).