A Oracle apresentou resultados sólidos no segundo trimestre do ano fiscal de 2026, consolidando sua transição para uma empresa prioritariamente voltada à computação em nuvem. A receita total atingiu US$16,1 bilhões, representando um crescimento de 14% em termos nominais e 13% em moeda constante em comparação ao mesmo período do ano anterior.
Pela primeira vez na história da companhia, a receita proveniente de serviços de nuvem passou a representar 50% do faturamento total, sublinhando o sucesso da estratégia de migração de sua base instalada e a captura de novos fluxos de demanda em inteligência artificial.
O desempenho operacional foi impulsionado pela divisão de Cloud Infrastructure (IaaS), que registrou um faturamento de US$ 4,1 bilhões, uma expansão expressiva de 68%. Este crescimento é significativamente superior à média do mercado de infraestrutura em nuvem, sendo alimentado pela demanda massiva por capacidades de treinamento de modelos de linguagem de larga escala (LLMs). Destaca-se que a receita relacionada a GPUs cresceu 177% no período, evidenciando o papel da Oracle como fornecedora crítica para empresas como NVIDIA, Meta e OpenAI.
No segmento de aplicações (SaaS), a receita somou US$3,9 bilhões, uma alta de 11%. Dentro deste braço, as aplicações estratégicas de back-office continuam a ser o motor de crescimento, com o Fusion Cloud ERP avançando 18% para US$1,1 bilhão e o NetSuite Cloud ERP crescendo 13% para US$ 1,0 bilhão. Por outro lado, o negócio legado de licenciamento de software e suporte on-premise apresentou retração de 3%, refletindo a canibalização planejada em favor do modelo de subscrição em nuvem.
Um dos indicadores mais robustos do relatório foi o RPO (Remaining Performance Obligations), que encerrou o trimestre em impressionantes US$523 bilhões, um salto de 438% na comparação anual. Esse aumento astronômico no backlog de contratos assinados, mas ainda não reconhecidos como receita, oferece uma previsibilidade de faturamento sem precedentes. Os dados apontam que pelo menos US$ 300 bilhões dessas obrigações estão vinculados a contratos de infraestrutura para a OpenAI, o que posiciona a Oracle em um patamar diferenciado na corrida da IA.
Em termos de rentabilidade, o lucro líquido GAAP foi de US$6,1 bilhões, com o lucro por ação (EPS) atingindo US$2,10 — um aumento de 91% em relação ao ano anterior. É fundamental notar, contudo, que este resultado foi impactado positivamente por um ganho extraordinário de US$2,7 bilhões antes de impostos referente à venda da participação da Oracle na empresa de chips Ampere. Excluindo efeitos não recorrentes, o EPS não-GAAP foi de US$2,26, superando as projeções de mercado de US$1,64, uma surpresa positiva de aproximadamente 38%.
Apesar do lucro acima do esperado, a margem operacional não-GAAP sofreu uma leve compressão, situando-se em 42%, ante 43% no ano anterior. Essa pressão decorre do mix de receita, uma vez que o segmento de nuvem, apesar de escalável, possui margens inicialmente inferiores ao licenciamento de software tradicional. Além disso, o fluxo de caixa livre foi negativo em US$10 bilhões no trimestre, devido ao elevado volume de investimentos em bens de capital (CapEx), que totalizou US$ 12 bilhões para a expansão de centros de dados.
Recentemente, em fevereiro de 2026, a Oracle anunciou um plano de financiamento agressivo de até US$50 bilhões para o próximo ano. A estratégia envolve uma combinação de dívida e emissão de ações (até US$20 bilhões através de um programa at-the-market), visando sustentar o crescimento acelerado da infraestrutura. Embora necessária para atender à demanda contratada, essa decisão traz um ponto de atenção relevante: o risco de diluição dos acionistas atuais em curto prazo e o aumento da alavancagem financeira em um cenário de juros ainda vigilantes.
As iniciativas de multicloud também merecem destaque, com a receita desse subsegmento crescendo 817%. A parceria com a Microsoft, Google e AWS para disponibilizar o Oracle Database de forma nativa nessas plataformas tem removido barreiras de entrada e acelerado o consumo. A empresa já conta com 45 regiões multicloud ativas e planeja abrir mais 27, reforçando sua posição como a nuvem preferencial para bancos de dados críticos que agora precisam ser integrados a ferramentas de IA de terceiros.
A avaliação geral do trimestre é positiva, fundamentada na aceleração do crescimento da receita e na expansão do backlog. A Oracle deixou de ser uma empresa de baixo crescimento e altos dividendos para se tornar uma tese de crescimento em infraestrutura tecnológica. A perspectiva futura é otimista quanto à receita, dada a conversão gradual do RPO recorde, mas os investidores devem monitorar a eficiência na execução das novas obras de infraestrutura e a manutenção das margens operacionais.
Como principais pontos de atenção, destacam-se a execução do novo plano de financiamento e a volatilidade potencial das ações devido à diluição anunciada. No campo operacional, o desafio reside em manter o ritmo de entrega de novos data centers para evitar gargalos que possam frustrar os clientes de IA. De modo geral, a Oracle demonstra resiliência e agilidade estratégica ao se posicionar como o alicerce físico para a revolução da inteligência artificial generativa.
Conclusão do analista
A Oracle mantém uma posição consolidada no setor de tecnologia corporativa, com forte presença em banco de dados, aplicações empresariais e soluções de nuvem, destacando-se pela transição estratégica para um modelo de receita recorrente com a Oracle Cloud Infrastructure e suas plataformas SaaS. A empresa combina margens operacionais robustas e geração consistente de caixa com políticas ativas de retorno ao acionista, ainda que opere com um nível de endividamento elevado, acentuado por aquisições como a da Cerner. Apesar dos desafios ligados à concorrência em cloud, à execução de integrações e ao declínio de segmentos legados, os fundamentos e o valuation indicam assimetria positiva no preço atual das ações, sustentando uma recomendação de compra para Oracle (ORCL).