A Alexandria Real Estate encerrou o exercício de 2025 em um período de intensa reciclagem de portfólio e ajustes operacionais. Como pioneira no nicho de propriedades voltadas para ciências da vida, a companhia enfrentou um cenário desafiador de excesso de oferta no mercado e taxas de juros elevadas, o que exigiu uma postura mais agressiva na alienação de ativos não estratégicos. A gestão reafirmou o foco na plataforma de Megacampus, buscando concentrar capital em ecossistemas de inovação de alta barreira de entrada, como os clusters de Boston e San Diego.
No quarto trimestre de 2025, a receita total somou US$ 754,4 milhões, o que representou uma retração de 4,4% na comparação com o mesmo período de 2024. Apesar da queda no faturamento bruto, o resultado superou as estimativas de mercado, sendo sustentado por um volume de locação (leasing) resiliente. Durante o trimestre, a empresa celebrou novos contratos e renovações totalizando 1,2 milhão de square feet (pé quadrado), um aumento de 14% em relação à média dos últimos quatro trimestres, demonstrando a demanda contínua de inquilinos de alta qualidade.
O lucro líquido apresentou uma variação atípica, registrando um prejuízo líquido de US$ 1,08 bilhão no trimestre (ou US$ 6,35 por ação), comparado a um prejuízo de US$ 64,9 milhões no quarto trimestre de 2024. Este resultado negativo foi impactado primordialmente por perdas realizadas em desinvestimentos específicos e encargos de impairment sobre propriedades destinadas à venda. No acumulado do ano, o prejuízo líquido foi de US$ 1,43 bilhão, refletindo o custo contábil da estratégia de desalavancagem e limpeza do balanço patrimonial.
Para a análise de fundamentos, o Funds From Operations (FFO) Ajustado por ação — métrica mais fiel à geração de caixa operacional — situou-se em US$ 2,16 no trimestre, superando levemente o consenso de US$ 2,15. No consolidado anual de 2025, o FFO Ajustado atingiu US$ 9,01 por ação, mantendo-se no centro do guidance fornecido pela gestão. Este desempenho ressalta que, apesar do impacto contábil negativo no lucro líquido, a operação core da Alexandria permanece gerando fluxos de caixa estáveis.
A taxa de ocupação das propriedades em operação encerrou o ano em 90,9%, uma melhora marginal de 30 pontos base em relação ao trimestre anterior. No entanto, o Same Property Net Operating Income (NOI) registrou uma queda de 6,0% no trimestre, pressionado pelo aumento nas despesas operacionais e pela vacância temporária em ativos em processo de readequação. As taxas de aluguel nas renovações e novas locações apresentaram redução de 9,9% no trimestre, sinalizando uma maior pressão competitiva e concessões feitas para manter a ocupação.
A estratégia de capital em 2025 foi marcada por um robusto programa de desinvestimentos, totalizando US$ 1,81 bilhão em vendas de ativos não essenciais e terrenos. Desse montante, US$ 1,47 bilhão foram concluídos apenas no quarto trimestre. Esses recursos foram direcionados para o fortalecimento da liquidez e redução da dívida bruta, que encerrou o período em US$ 12,76 bilhões. Em janeiro de 2026, a companhia já executou o pagamento de US$ 300 milhões em notas sêniores sem necessidade de novo endividamento.
Um ponto de atenção crítico foi a decisão do Conselho de Administração de reduzir o dividendo por ação comum, visando preservar cerca de US$ 410 milhões anuais em fluxo de caixa livre. Esta medida, embora recebida com cautela pelo mercado, visa financiar o plano de capital de 2026 sem recorrer a emissões de ações (equity) em preços desvantajosos. A relação dívida líquida sobre EBITDA Ajustado situou-se em 6,1x no terceiro trimestre, com metas de redução para a faixa de 5,5x a 6,0x no curto prazo.
Os pontos positivos incluem a alta concentração de receitas (77%) provenientes de inquilinos em Megacampus e a forte qualidade de crédito da base de locatários, com 53% da receita anual proveniente de empresas de investment-grade ou grandes companhias de capital aberto. Além disso, as despesas gerais e administrativas foram reduzidas em 30% em 2025, evidenciando um esforço de eficiência operacional por parte da liderança.
Em termos de perspectivas futuras, o guidance de EPS (Lucro por Ação) para 2026 foi estabelecido entre US$ 6,25 e US$ 6,55, refletindo a continuidade dos ajustes contábeis e a estabilização do portfólio. A gestão espera que a redução nos gastos com construção e a conclusão do ciclo de alienações permitam uma recuperação gradual das margens operacionais. O cenário macroeconômico, especialmente a trajetória dos juros nos Estados Unidos, continuará sendo o principal catalisador para a reavaliação do múltiplo P/FFO da companhia.
Conclui-se que a Alexandria está em um ano de transição necessária. Embora os resultados nominais tenham sido impactados por perdas contábeis pesadas, a resiliência do FFO e o sucesso no programa de desinvestimentos sugerem uma empresa que está se tornando "menor, porém mais forte". O julgamento técnico indica um perfil de risco elevado no curto prazo devido à volatilidade dos lucros, mas com fundamentos sólidos no longo prazo para investidores focados na infraestrutura crítica de biotecnologia.
Conclusão do Analista
Embora sua operação esteja direcionada a esse mercado laboratorial específico, o REIT possui uma importante diversificação de aluguéis em subsegmentos, como foi mostrado na Área de Atuação da Empresa neste relatório. Essa diversificação se aplica tanto dentro dos subsegmentos mencionados quanto em relação às receitas recebidas de diversos inquilinos, evitando, assim, concentração excessiva. Considerando os pontos apresentados e os riscos associados, acreditamos que o Alexandria é uma opção de investimento viável e que traz uma relação risco e retorno apropriada, desde que seja colocado dentro de uma carteira diversificada. Portanto, nossa recomendação é de compra para as ações do Alexandria (ARE).