O 1T26 da Vale entregou um resultado sólido na comparação anual, com EBITDA Proforma de US$ 3,9 bilhões — alta de 21% frente ao 1T25 —, lucro líquido de US$ 1,9 bilhão e fluxo de caixa livre recorrente de US$ 813 milhões. Os dois principais vetores do crescimento foram preço e volume: o preço realizado do minério de ferro fino avançou 6% a/a, os volumes de vendas de ferro, cobre e níquel cresceram na mesma direção, e o segmento de Metais Básicos registrou performance especialmente expressiva. Em relação ao trimestre anterior, contudo, o EBITDA recuou 19%, reflexo da sazonalidade típica do 1T e do menor volume de vendas de minério de ferro, que contraiu 19% frente ao 4T25. O resultado financeiro reforça a narrativa de uma companhia em melhora operacional consistente, mas que ainda carrega um custo C1 do minério de ferro pressionado pela apreciação do real, elemento que deve permanecer no radar ao longo de 2026.
O segmento de Soluções de Minério de Ferro gerou EBITDA de US$ 2,9 bilhões, praticamente estável a/a — o que, dado o contexto de real mais forte e custo de giro de estoque mais elevado, representa um desempenho operacional razoável. O C1 de caixa do minério fino (ex-terceiros) subiu 12% a/a para US$ 23,6/t, pressionado pela apreciação cambial, pelo efeito de giro de estoque e pela desconsolidação da Aliança Energia. O custo all-in chegou a US$ 55,4/t, 8% acima do mesmo período do ano anterior, o que ainda deixa margem confortável frente ao preço realizado de US$ 95,8/t. O prêmio all-in, por sua vez, melhorou expressivamente — alcançando US$ 6,2/t, alta de 72% sequencial —, resultado da estratégia de mix voltada a produtos de menor alumina e da contribuição crescente do negócio de pelotas. A guidance para 2026 aponta custos C1 e all-in tendendo ao limite superior das faixas divulgadas, dada a premissa de câmbio em torno de R$ 5,25/USD.
O destaque positivo do trimestre foi sem dúvida a Vale Metais Básicos (VBM), que praticamente dobrou seu EBITDA a/a, atingindo US$ 1,2 bilhão. Cobre cresceu 74% — impulsionado por preços de LME 38% mais altos e por receitas de ouro que praticamente dobraram — e níquel teve expansão de 576%, com o custo all-in caindo quase à metade graças à performance excepcional de subprodutos e às melhorias operacionais em Sudbury e Voisey's Bay. Vale notar que esses resultados de níquel incluem um efeito relevante de subprodutos — como PGMs, cobalto e cobre — que amplificam a rentabilidade num contexto de preço de metais preciosos historicamente elevados. Sem esse efeito de subprodutos, o desempenho do segmento seria consideravelmente mais modesto.
Na frente financeira e de capital, a geração de caixa livre de US$ 813 milhões foi parcialmente ofuscada pelo pagamento de US$ 2,7 bilhões em dividendos e JCP, o que elevou a dívida líquida expandida para US$ 17,8 bilhões — alta de US$ 2,2 bilhões no trimestre. A alavancagem, contudo, permanece baixa em 0,8x dívida líquida/EBITDA LTM, e o prazo médio da dívida é confortável em 8,4 anos. O capex de US$ 1,1 bilhão foi inferior ao 4T25 e ao 1T25, em linha com a cadência esperada para o guidance anual de US$ 5,4–5,7 bilhões. As provisões de Brumadinho e Samarco, que somam US$ 4,1 bilhões no balanço, continuam sendo um passivo relevante, com desembolsos estimados entre US$ 0,7 e US$ 0,9 bilhão por ano nos próximos dois anos.
O segundo semestre de 2026 concentra os eventos que mais interessam: o start-up do Serra Sul +20 (20 Mtpa, progresso físico de 86%) e do Britador de Compactos S11D (91% concluído), ambos previstos para o 2S26. A entrada dessas capacidades adicionais deverá contribuir para a diluição de custos fixos no minério de ferro e para ampliar o volume de vendas — dois dos principais catalisadores de melhora de resultado para o segundo semestre e para o ano de 2027. Nos Metais Básicos, as decisões de investimento em Alemão e Expansão de Salobo são esperadas ainda em 2026 e sinalizam a disposição da companhia em acelerar a geração de valor no cobre, metal cujos fundamentos de longo prazo permanecem favoráveis.
Conclusão do Analista
A Vale atravessou, nos últimos anos, um processo relevante de reestruturação operacional e redução de riscos, com avanços importantes em segurança, disciplina financeira e diversificação de portfólio. A companhia segue como uma das maiores e mais eficientes produtoras globais de minério de ferro, com posição de custo competitiva e geração de caixa robusta mesmo em cenários menos favoráveis de preço.
Por outro lado, o alto peso do minério de ferro na composição dos resultados mantém a empresa fortemente exposta à volatilidade do ciclo de commodities e à demanda chinesa. Apesar dos avanços em metais de transição e da melhora estrutural do negócio, o valuation atual já reflete boa parte desses atributos. Assim, a tese segue sustentada por fundamentos sólidos, mas com menor margem de segurança frente às incertezas do cenário global. Recomendação de aguarde.