O 1T26 da Ser Educacional foi o melhor trimestre da companhia em termos de lucro líquido desde o IPO, com crescimento de 74% na comparação anual para R$ 75,9 milhões, e de 58% no ajustado para R$ 81,9 milhões. O resultado é consequência de três vetores que se reforçam mutuamente: crescimento da base de alunos presenciais pelo quinto ano consecutivo, maturação das vagas de medicina credenciadas nos últimos 18 meses e queda consistente do custo financeiro com a desalavancagem. A receita líquida cresceu 8,1%, para R$ 583,8 milhões, e a margem bruta atingiu 62,5% — expansão de 1,8 ponto percentual —, reflexo da alavancagem operacional sobre uma base de custos que cresceu apenas 3,2%, bem abaixo da receita. O ticket médio total avançou 9,7%, combinando repasse de inflação, política mais restritiva de descontos e migração do mix para cursos mais rentáveis.
O segmento presencial — que representa 81,2% da receita líquida — foi o principal motor do trimestre, com a base de alunos atingindo 196,8 mil, alta de 6,2% anual. Esse crescimento veio não de uma captação mais agressiva, mas da redução das taxas de evasão e de egressos: a evasão presencial caiu de 12,2% para 11,8%, beneficiada pela melhora das taxas de adimplência associadas ao programa Ser Solidário — modelo que parcelou ao longo do curso os descontos que antes eram concedidos na matrícula. O EAD, por sua vez, continua em contração deliberada: a captação nessa modalidade caiu 72,6% com a nova regulamentação do MEC, que criou a categoria Semipresencial. A empresa está racionalizando a oferta de cursos de menor ticket médio nessas modalidades, o que implica perda de volume no curto prazo mas melhora a rentabilidade por aluno. O total de alunos da base EAD caiu quase 20% anualmente, o que evidencia que a transição regulatória ainda não está totalmente absorvida.
O ticket médio de medicina apresentou queda de 13,8% na comparação trimestral — o ponto mais ruidoso do resultado operacional — mas a explicação é predominantemente técnica: a base de comparação do 1T25 foi excepcionalmente alta por fatores não recorrentes como entrada de alunos de novos campi no Rio de Janeiro e Belo Horizonte, concentração menor de descontos PROUNI naquele trimestre e maior volume de alunos no 5º ano do curso, com ticket de internato mais elevado. A média histórica dos últimos 24 meses situa o ticket de medicina em torno de R$ 9.539/mês, e o 1T26 ficou em R$ 9.285 — razoavelmente dentro dessa faixa, desconsiderado o ruído do comparativo. O desafio aqui é que as vagas judicializadas de medicina têm novos vestibulares suspensos, o que limita a reaceleração no curto prazo.
A geração de caixa foi o destaque mais robusto do trimestre. A GOC pós-CAPEX alcançou R$ 109,6 milhões, crescimento de 45,2% sobre o 1T25, e a conversão EBITDA ajustado para caixa operacional chegou a 69,3% — alta de 16,7 pontos percentuais, o que indica que o modelo está se tornando progressivamente mais eficiente em transformar margem em caixa. O resultado financeiro melhorou 12,6% com a queda das despesas de juros, reflexo direto da desalavancagem: a dívida líquida saiu de R$ 662,7 milhões no 1T25 para R$ 428,0 milhões no 1T26, com o índice dívida líquida/EBITDA ajustado atingindo 0,75x — o menor nível desde 2021 e o 13º trimestre consecutivo de redução.
Conclusão do Analista
Mesmo atuando em um setor altamente competitivo, a Ser vem executando com sucesso uma mudança estratégica relevante, migrando do EAD tradicional para cursos de maior valor agregado, como saúde e engenharia. O foco no Nordeste, a melhora de margens, a baixa alavancagem e a retomada consistente da geração de caixa ainda não foram totalmente precificados pelo mercado. Além disso, a expansão de vagas em Medicina e a perspectiva de dividendos recorrentes reforçam a atratividade da tese. Diante desse cenário, a ação negocia com desconto injustificável frente ao seu valor justo, sustentando a recomendação de COMPRA.