O primeiro resultado divulgado pela Compass como companhia listada mostra uma empresa com fundamentos operacionais sólidos, mas com pressão crescente no resultado financeiro à medida que os investimentos em novos projetos se traduzem em maior endividamento e depreciação. O EBITDA consolidado cresceu 2% na comparação anual para R$ 1.329 milhões, mas esse número é influenciado pela antecipação de cargas de otimização exportadas ao mercado externo pela Edge no período. Normalizando esse efeito em ambas as bases, o EBITDA ajustado atingiu R$ 1.204 milhões — crescimento de 12%, que reflete com mais fidelidade a evolução operacional subjacente. O lucro líquido, por sua vez, caiu 9% para R$ 382 milhões, pressionado pelo resultado financeiro 15% mais alto, consequência direta do aumento da dívida para financiar a expansão, e pela depreciação 13% mais elevada dos projetos que entraram em operação.
O segmento de Distribuição — que ancora o resultado da companhia — entregou o trimestre mais consistente desde a criação da Compass. O EBITDA da distribuição cresceu 10%, para R$ 1.057 milhões, sustentado por volumes 1% superiores e pela melhora de mix, com destaque para o crescimento de 5% no residencial, impulsionado por temperaturas mais amenas e adição de novos clientes, e pelo desempenho do industrial, puxado pela cogeração e pelos setores de vidros e alimentos. A base de clientes cresceu 7% anualmente para 3,1 milhões, e a rede de distribuição expandiu 3% em extensão, atingindo 28 mil quilômetros. Esses são indicadores que refletem crescimento orgânico contínuo, com caráter recorrente e previsível, típicos de uma concessão regulada. Os investimentos em distribuição avançaram 16% no trimestre, para R$ 377 milhões, em linha com os planos regulatórios.
O segmento de Marketing & Serviços, gerido pela Edge, apresentou queda de 14% no EBITDA reportado para R$ 312 milhões, mas novamente aqui o efeito da antecipação de cargas distorce a leitura. Normalizado, o EBITDA da Edge foi de R$ 187 milhões — alta de 36% —, reflexo do crescimento de 27% nos volumes comercializados no mercado interno, das otimizações de carga e dos primeiros resultados das novas frentes operacionais. O início das operações de GNL B2B off-grid — que conecta o Terminal de Regaseificação de São Paulo a clientes industriais fora da malha de gasodutos em um raio de até 1.200 km — representa a expansão mais relevante do modelo de negócio da Edge até o momento, ampliando o mercado endereçável para consumidores que hoje dependem de diesel ou outro combustível. A Onebio, maior planta de biometano do Brasil, também entrou em operação no trimestre e ainda está em ramp-up, mas já adiciona uma vertical de crescimento que diferencia a Compass de distribuidoras de gás tradicionais.
A estrutura de capital merece atenção. A alavancagem subiu de 2,1x para 2,2x ao longo do trimestre, com a dívida líquida atingindo R$ 11,1 bilhões. No período, a empresa captou R$ 2,6 bilhões em debêntures de longo prazo em suas subsidiárias — parcialmente para refinanciamento via liability management — e a dívida está bem gerenciada, com 90% no longo prazo, prazo médio de 5,5 anos e 92% indexada a CDI com hedge. A questão de fundo é que o modelo de crescimento da Compass é capital-intensivo — R$ 15 bilhões investidos em seis anos — e o benefício pleno dos novos ativos ainda está sendo gradualmente incorporado nas receitas, enquanto o custo financeiro já está totalmente refletido.
Para os próximos trimestres, os vetores a monitorar são a velocidade de ramp-up do GNL B2B e do biometano — que ainda contribuem marginalmente para o resultado — e a evolução dos volumes industriais no segmento de distribuição, que respondem por 88% do volume mas apenas 53% da margem, o que indica espaço para melhoria de mix com crescimento relativo dos segmentos residencial e comercial.
Conclusão do Analista
A Compass chega à bolsa combinando características raras no mercado brasileiro: um negócio com perfil de utility, geração previsível de caixa e crescimento orgânico contratado por décadas, mas com uma opcionalidade relevante ligada à abertura do mercado livre de gás natural no Brasil. A companhia possui ativos de alta qualidade, liderados pela Comgás, além de uma avenida importante de crescimento via Edge, biometano e GNL off-grid.
Mesmo sendo uma empresa recém-listada e ainda em fase de provar ao mercado a execução de suas novas frentes, entendemos que o valuation do IPO ocorreu em patamar conservador. O principal ponto de atenção segue sendo a alocação de capital dentro do ecossistema Cosan e a necessidade de execução operacional da Edge nos próximos anos. Ainda assim, enxergamos uma assimetria positiva de risco-retorno para o longo prazo e mantemos recomendação de COMPRA para PASS3.