A Kepler Weber apresentou um 2T26 misto, com crescimento importante nos segmentos estratégicos, mas ainda enfrentando um ambiente bastante difícil para o produtor rural. A Receita Líquida foi de R$ 299,1 milhões, queda de 3,9% frente ao 2T25. O principal ponto negativo continua sendo o segmento de Fazendas, enquanto Agroindústrias e Reposição & Serviços vêm ganhando participação e ajudando a tornar o negócio menos dependente do ciclo de investimentos do produtor rural.
O destaque positivo foi Agroindústrias, cuja receita cresceu 17,9% no trimestre e 11,3% no primeiro semestre, alcançando R$ 126,5 milhões no 2T26. A companhia registrou R$ 169,7 milhões em novos contratos no segmento, impulsionados principalmente por projetos ligados ao processamento e armazenamento de grãos e biocombustíveis. Com isso, Agroindústrias já representa 42,3% da receita trimestral, contra 34,5% um ano antes. Acreditamos que essa mudança de mix é importante para a tese, pois reduz gradualmente a dependência da empresa em relação ao ciclo de investimento das fazendas.
Em Fazendas, por outro lado, a situação continua desafiadora. A receita caiu 13,2% no trimestre e 25,4% no semestre, refletindo juros elevados, crédito mais restritivo e margens pressionadas no produtor rural. A margem bruta também recuou de 19,8% para 16,1%. Apesar disso, foram contratados aproximadamente R$ 74,5 milhões em novos projetos no trimestre. A própria companhia, porém, destaca que ainda não há sinais suficientes para considerar esse movimento como uma mudança de tendência. O segundo semestre tende a ser mais importante para o segmento, especialmente com o planejamento da próxima safra e as decisões relacionadas ao Plano Safra 2026/27.
Outro ponto que merece destaque é Reposição & Serviços, que apresentou crescimento de 5,0% no trimestre, para R$ 65,6 milhões, com margem bruta de 30,2%. A Procer continua avançando, chegando a mais de 2.905 unidades armazenadoras conectadas e 2.272 clientes, enquanto a receita das máquinas Seletron cresceu 165% no período. Esse segmento contribui para aumentar a recorrência e a participação de soluções de maior valor agregado dentro da companhia.
O principal problema do trimestre ficou evidente nas margens consolidadas. O EBITDA caiu 31,7%, para R$ 25,9 milhões, com margem de 8,7%, ante 12,2% no 2T25. O lucro líquido foi de apenas R$ 6,3 milhões, queda de 56,1%. A pressão veio principalmente da menor receita, da redução dos preços de venda e da menor diluição dos custos fixos. No semestre, o EBITDA acumula queda de 34,4% e o lucro líquido recuou 41,3%.
Apesar da piora operacional, a estrutura financeira continua sendo um ponto forte da tese. A Kepler encerrou junho com R$ 354,2 milhões em caixa e caixa líquido positivo de R$ 29,3 milhões. Além disso, a companhia conseguiu reduzir o custo médio da dívida de 16,83% no 1T26 para 15,77% no 2T26, enquanto o fluxo de caixa operacional atingiu R$ 58,9 milhões no semestre. O ROIC, mesmo recuando, permaneceu em um nível elevado de 19,7%.
O backlog também apresentou evolução importante na comparação trimestral, crescendo 9,3% frente ao 1T26, impulsionado justamente por Agroindústrias. Na comparação anual, porém, houve queda de 13,8%, refletindo a fraqueza de Fazendas. A composição da carteira é o aspecto mais interessante: negócios como Agroindústrias, Internacionais, Portos e Terminais e Reposição & Serviços já representam 72% da receita, contra 66% no primeiro semestre de 2025.
Nossa visão permanece positiva para a Kepler Weber, mas com maior cautela no curto prazo. O resultado não foi forte em termos de lucro e margens, e ainda não vemos evidências suficientes de uma recuperação consistente do segmento de Fazendas. Por outro lado, os fundamentos de longo prazo continuam preservados: a companhia mantém caixa líquido, ROIC elevado, forte posição competitiva, crescimento de Agroindústrias, avanço em serviços e tecnologia e uma carteira cada vez mais diversificada. Dessa forma, entendemos que a deterioração atual está mais relacionada ao ciclo de demanda e ao mix de negócios do que a uma perda estrutural da tese, sendo importante acompanhar a evolução das margens e da demanda de Fazendas nos próximos trimestres.
Conclusão do Analista
A Kepler Weber se posiciona como um dos principais players de infraestrutura do agronegócio brasileiro, atuando em um elo crítico da cadeia: a armazenagem de grãos. Mesmo após um período de normalização dos resultados, a companhia segue apresentando elevada rentabilidade, com ROE acima de 20% e margens robustas.
O grande diferencial da tese está no crescimento estrutural do setor, impulsionado pelo déficit relevante de armazenagem no Brasil, que ainda está muito abaixo do ideal. Além disso, a expansão de receitas recorrentes no pós-colheita tende a reduzir a volatilidade dos resultados ao longo do tempo. Diante disso, reiteramos recomendação de COMPRA.