O primeiro trimestre de 2026 foi o melhor trimestre operacional e financeiro da história da Brava, com recordes simultâneos de receita, EBITDA e margem. O principal motor do resultado foi o segmento offshore, que se beneficiou da forte valorização do Brent no período — impulsionada pelo fechamento do Estreito de Ormuz após o agravamento do conflito no Oriente Médio — e da retomada da produção em Parque das Conchas após manutenção programada concluída em janeiro. O preço médio de venda de óleo avançou expressivamente na comparação trimestral, puxando a receita líquida para o maior nível histórico em dólar desde a formação da companhia em 2024. A combinação de volume razoavelmente estável com preços mais altos e custos sob controle foi o que viabilizou a expansão de margem EBITDA para 52%, com o offshore registrando 68% — nível que evidencia a qualidade dos ativos quando o ambiente de preços é favorável.
Do ponto de vista operacional, o trimestre teve dois vetores negativos que precisam ser monitorados: a paralisação parcial das instalações em Potiguar, decorrente de auditoria da ANP, e a intervenção em uma das bombas do campo de Atlanta. Ambos limitaram a produção onshore, que recuou 20% em relação ao mesmo período do ano anterior, e impediram que o volume total avançasse de forma mais expressiva — a produção consolidada ficou estável em relação ao 4T25, em torno de 76 mil boe/d. A questão de Potiguar tem natureza regulatória e temporária, com perspectiva de retomada gradual ao longo de 2026, mas representa um risco que pesa sobre o segmento com maior custo de extração da Companhia, onde o lifting cost onshore chegou a US$ 20,6/boe no trimestre.
Na frente financeira, o ponto de atenção é o resultado líquido negativo de R$ 350 milhões, que não reflete deterioração operacional, mas sim o impacto contábil da marcação a mercado dos contratos de hedge de óleo — cujo efeito caixa foi marginal. Com o Brent encerrando março ao redor de US$ 118/bbl, os contratos de proteção travados em preços significativamente mais baixos geraram uma perda contábil expressiva no resultado financeiro. Esse é um efeito recorrente quando há alta abrupta nos preços da commodity, e tende a reverter parcialmente ao longo dos próximos trimestres à medida que os contratos vençam. A geração de caixa operacional de US$ 185 milhões e a manutenção da posição de caixa acima de US$ 1 bilhão mostram que a saúde financeira da companhia segue robusta.
O processo de desalavancagem continua sendo a dimensão mais relevante para acompanhar. A alavancagem atingiu 1,84x em dólar, o menor nível desde a fundação da Brava, com quatro trimestres consecutivos de redução. A dívida líquida consolidada recuou 21% na comparação anual em dólar, e os earn-outs remanescentes da aquisição de ativos — hoje totalizando cerca de US$ 192 milhões — têm calendário definido e gestível. A venda da participação na Unitização de Jubarte e a certificação de reservas 2P em 611 MMboe reforçam tanto o perfil de geração de valor quanto a opcionalidade do portfólio.
Para os próximos trimestres, dois catalisadores são centrais: a campanha de perfuração offshore em Papa-Terra, com dois poços em andamento dentro do prazo e orçamento, que deve agregar capacidade instalada relevante; e a captura mais integral do ambiente de preços elevados, já que o 1T26 não refletiu integralmente a valorização do Brent pelo mecanismo de fixação de preços dos carregamentos. O segmento downstream também deve se beneficiar da expansão dos spreads de bunker, produto predominante na cesta da Brava, ao longo do primeiro semestre. A combinação desses fatores sugere que o 2T26 tem condições de sustentar — e possivelmente superar — o nível de geração operacional do trimestre ora reportado.
Conclusão do Analista
Desde a fusão, a Brava Energia avançou na estabilização de seus ativos, especialmente os offshore, reduzindo a percepção de risco no curto prazo com menor nível de investimentos e queda da alavancagem. Contudo, a volatilidade recente do Brent, a perspectiva de retomada da queima de caixa em 2026 e a aquisição anunciada em janeiro aumentaram a incerteza da tese e pioraram a relação risco-retorno do investimento. Apesar de o valor pago não ter sido elevado, entendemos que a mudança de direcionamento estratégico em um momento mais instável do ciclo do petróleo justifica uma postura mais cautelosa, motivo pelo qual rebaixamos a recomendação de BRAV3 de COMPRA para VENDA, dando preferência a outros nomes do setor.