O primeiro trimestre de 2026 confirmou a consistência operacional da Minerva Foods num ambiente de mercado favorável para exportadores de proteína bovina sul-americana. A receita líquida avançou 19,8% na comparação anual, atingindo R$ 13,4 bilhões, impulsionada pela combinação de preços mais elevados tanto no mercado externo quanto no interno, e pelo crescimento de volume de 16,2% no total de vendas. O EBITDA cresceu 16,2%, chegando a R$ 1,1 bilhão, com margem de 8,3% — ligeiramente abaixo do 1T25 (8,6%), reflexo direto da compressão de margem bruta provocada pelo aumento no custo do gado, especialmente no Brasil, onde a inversão do ciclo pecuário elevou o CMV para 82,9% da receita líquida. Nos últimos 12 meses, o EBITDA acumulado de R$ 5,0 bilhões é recorde histórico para a base anual, o que demonstra que a expansão da plataforma via aquisições de 2024 está gerando resultado operacional concreto.
O grande destaque positivo do trimestre está no mix de destinos de exportação e na capacidade da companhia de arbitrar mercados globais. China e Estados Unidos concentraram 24% e 18% da receita de exportação de carne bovina, respectivamente, com os EUA se consolidando como destino relevante em razão do pior ciclo pecuário da história americana — que restringe a oferta local e abre espaço para fornecedores sul-americanos. A Ásia respondeu por 36% das exportações no LTM, avanço expressivo de 10 p.p. frente ao período anterior. A capacidade de redirecionar volumes entre origens — Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Colômbia — e mercados confere à Minerva uma resiliência operacional que poucos competidores conseguem replicar. Neste trimestre, essa flexibilidade compensou parcialmente as restrições impostas pela China sobre algumas unidades e as pressões de custo de gado no Brasil.
Na frente financeira, o resultado foi mais misto. O lucro líquido caiu 52,8% frente ao 1T25, para R$ 87,3 milhões, penalizado por um resultado financeiro negativo de R$ 766,2 milhões, ainda que com melhora expressiva ante os R$ 953,4 milhões negativos do 4T25. A alavancagem encerrou estável em 2,7x dívida líquida/EBITDA LTM, patamar que a gestão tem sinalizado como aceitável dentro do ciclo atual. A companhia seguiu ativa na gestão do passivo: recomprou US$ 228,9 milhões em bonds no ano corrente — incluindo o resgate do Bond 2028 e recompras do Bond 2031 com desconto de 8,6% sobre o valor de face — e emitiu o Bond 2036 de US$ 600 milhões com demanda 2,5x superior à oferta, além de duas novas emissões de debêntures no mercado local. Essas iniciativas caminham na direção de reduzir o custo de capital e alongar o perfil da dívida, com duration ainda curto de 4,0 anos.
A geração de caixa livre no trimestre foi negativa em R$ 806,3 milhões, reflexo da sazonalidade típica do período — com forte consumo de capital de giro por conta de pagamentos a fornecedores de gado — e de um capex ainda relevante de R$ 289,1 milhões. No acumulado dos últimos 12 meses, o caixa livre foi de R$ 1,2 bilhão, nível que sustenta a narrativa de desalavancagem gradual. A posição de caixa de R$ 10,9 bilhões cobre confortavelmente o cronograma de amortizações até 2029, o que reduz o risco de refinanciamento de curto prazo.
O ambiente externo segue como principal catalisador para o restante do ano. A persistência do ciclo bovino desfavorável nos EUA, a demanda crescente da Ásia e a abertura de novos mercados — como a expansão da quota argentina para os EUA — criam um pano de fundo comercial estruturalmente positivo para os próximos trimestres. A variável de risco mais relevante permanece sendo o custo do gado no Brasil, que segue pressionado e limita a expansão de margem bruta mesmo com receita em crescimento. A evolução da captura de sinergias pós-integração das unidades adquiridas e a continuidade da redução do endividamento bruto serão os fatores determinantes para a trajetória de resultado da companhia ao longo de 2026.
Conclusão do Analista
A Minerva segue fortemente exposta aos ciclos das commodities, com elevada dependência da demanda chinesa e sensibilidade a choques de preço, sanitários e regulatórios. Apesar desse cenário ainda desafiador no curto prazo, os ganhos de escala recentes, a maior diversificação geográfica e a melhora gradual da estrutura financeira após o aumento de capital reduzem parte dos riscos observados anteriormente. Diante desse equilíbrio entre avanços estruturais e um ambiente operacional ainda volátil, entendemos que a relação risco-retorno deixou de justificar uma posição de venda, mas ainda não sustenta uma recomendação de compra. Assim, elevamos a recomendação para AGUARDE para as ações da Minerva (BEEF3).