O Bradesco entregou no 1T26 seu nono trimestre consecutivo de crescimento do lucro recorrente, com R$ 6,8 bilhões — alta de 4,5% T/T e 16,1% A/A. O ROAE trimestral alcançou 15,8%, o melhor desde o início do processo de recuperação iniciado após o ciclo de provisões de 2022-2023, e o índice de eficiência recuou para 46,9%, redução de 3,3 pontos percentuais frente ao 4T25 e de 2,8 pontos na comparação anual. A trajetória é clara e consistente: o banco está recuperando rentabilidade de forma gradual, com receitas crescendo mais rápido do que despesas, e sem necessidade de acelerar o ritmo de concessão de crédito para sustentar os números. As receitas totais chegaram a R$ 36,9 bilhões, crescimento de 14% A/A, sustentado pela margem financeira (+16,4%), pelo resultado de seguros (+20,4%) e pelas receitas de serviços (+6,2%).
O principal driver positivo do trimestre foi a margem financeira, que atingiu R$ 20,1 bilhões — crescimento de 4,2% T/T mesmo com efeito calendário desfavorável. A margem com clientes cresceu 2,0% sobre o 4T25, reflexo do aumento do volume de crédito e do spread, o que sinaliza que o banco está conseguindo recompor preço sem deteriorar a qualidade. A margem com mercado também contribuiu, saltando de R$ 126 milhões no 4T25 para R$ 553 milhões no 1T26, resultado da gestão de risco em ambiente de juros elevados. O grupo segurador confirmou mais uma entrega sólida, com resultado operacional de R$ 6,4 bilhões (+13,0% T/T), sinistralidade sob controle e crescimento de prêmios, contribuindo com cerca de um terço do resultado consolidado — o que diferencia estruturalmente o Bradesco de bancos puramente focados em crédito.
O custo do crédito, no entanto, subiu 9,5% no trimestre para R$ 9,7 bilhões, e esse é o vetor de atenção do resultado. O banco menciona reforços de balanço para casos específicos em Grandes Empresas e cobertura da movimentação de estágio 3 acima de 100%, o que indica provisões preventivas e não apenas reativas. A inadimplência acima de 90 dias ficou em 4,2%, alta de apenas 0,1 ponto percentual no trimestre — controlada, mas com um ponto de fragilidade identificado no agronegócio e no segmento de MPME. No crédito rural, o banco reconheceu piora em operações antigas tanto de pessoas físicas quanto jurídicas, refletindo o estresse setorial que também apareceu de forma mais intensa no Banco do Brasil. A carteira reestruturada, por outro lado, continuou a diminuir pelo segundo trimestre consecutivo, o que é um indicador positivo de qualidade de longo prazo.
A carteira de crédito expandida cresceu modestamente, 0,1% no trimestre e 8,4% no ano, totalizando R$ 1,09 trilhão. O apetite ao risco permanece moderado — com viés conservador, nas palavras do próprio banco — o que explica por que a carteira PJ recuou 1,1% no trimestre. A estratégia de composição vem mudando em direção a linhas com garantias: consignado, financiamento de veículos e capital de giro com garantias ganharam participação relativa, o que deve sustentar margens e manter inadimplência comportada nos próximos trimestres. As despesas operacionais caíram 4,6% T/T, beneficiadas pela redução de despesas de pessoal, de transportes e instalações, enquanto os gastos em tecnologia avançam — padrão que reflete a maturação do processo de transformação digital, com redução de estrutura física e reinvestimento em infraestrutura digital.
A criação da Bradsaúde — consolidação dos ativos de saúde da Organização — é o movimento estratégico mais relevante do trimestre. Além do potencial de geração de valor com a simplificação e otimização dos ativos de saúde, a operação permitiu ao banco apresentar índices de capital acima do nível de dezembro mesmo após recuos regulatórios no trimestre. Com ROAE de 15,8%, o Bradesco segue num patamar ainda inferior ao Itaú (próximo de 25%) e ao BB histórico pré-crise, mas a velocidade de recuperação — nove trimestres consecutivos de avanço — indica que a companhia está executando o plano com disciplina, e a meta implícita de convergência para níveis historicamente normais de rentabilidade continua dentro do horizonte de médio prazo.
Conclusão do Analista
O Bradesco segue como uma das instituições financeiras mais sólidas do país, com forte presença nacional e uma operação de seguros altamente rentável. Apesar da melhora gradual dos resultados, o banco ainda apresenta rentabilidade abaixo do seu histórico e inferior aos principais concorrentes. O ambiente competitivo mais intenso e a evolução mais lenta em eficiência e tecnologia limitam a recuperação no curto prazo. Diante de um valuation mais exigente, optamos por uma postura mais cautelosa, mantendo recomendação AGUARDE.