O Banco do Brasil reportou o resultado mais fraco em vários anos, com lucro líquido ajustado de R$ 3,4 bilhões no 1T26 — queda de 40% na comparação trimestral e de 53% frente ao 1T25. O principal vetor de deterioração foi o custo do crédito, que atingiu R$ 18,9 bilhões no trimestre, fortemente pressionado por uma expansão expressiva nos descontos concedidos: a linha saltou de R$ 700 milhões no 4T25 para R$ 3,5 bilhões, um avanço de 400% trimestral. O banco explicou que essa variação está relacionada à resolução, via cessão de créditos, de um caso específico no segmento de Pessoas Jurídicas identificado no 4T25 — o que concentrou efeito contábil nos descontos mas, segundo o próprio BB, sem impacto material no resultado total do trimestre. Mesmo assim, o aumento acumulado do custo do crédito em 86% na comparação anual evidencia uma deterioração estrutural que vai muito além de eventos pontuais.
Do lado da margem financeira, o desempenho foi razoável dado o ambiente. A Margem Financeira Bruta (MFB) chegou a R$ 27,4 bilhões, queda de apenas 1,3% T/T explicada majoritariamente pelo efeito calendário — foram três dias úteis a menos no trimestre — e pela retração da Selic. Na comparação anual, a MFB cresceu 15%, sustentada pela expansão do crédito a pessoas físicas e pelo resultado de tesouraria, favorecido por maior excesso de liquidez. A margem com clientes, no entanto, caiu 6% na comparação trimestral, pressionada pelo mesmo efeito calendário e pela queda nos spreads — sinal de que o ambiente de Selic elevada, apesar de favorável para os ativos prefixados e indexados a CDI, começa a pressionar o custo de captação com menor defasagem do que no passado.
A qualidade da carteira merece atenção especial. A inadimplência acima de 90 dias recuou levemente, de 5,17% para 5,05%, mas o nível permanece muito superior ao de um ano atrás, quando estava em 3,63%. O segmento agro, historicamente o de maior peso relativo na carteira do BB, continua sendo o centro da preocupação: o BB Regulariza Agro — programa de renegociação criado pela MP 1.314/25 — alcançou R$ 37,9 bilhões de saldo, crescimento de 68% T/T, refletindo o volume de renegociações ainda em curso. A carteira total de créditos renegociados e reestruturados caiu 10% no trimestre, para R$ 71,5 bilhões, o que é positivo, mas o índice de reestruturação subiu para 55% — indicando que mais da metade das renegociações envolve concessões significativas ao devedor. O índice de cobertura da carteira total recuou para 158%, ante 187% um ano atrás, o que reduz a margem de segurança em caso de novos estresses. A revisão do guidance foi o principal sinal de alerta do trimestre. O banco revisou para cima o intervalo projetado para o custo do crédito — de R$ 53-58 bilhões para R$ 65-70 bilhões —, um ajuste de quase R$ 12 bilhões no ponto médio.
Simultaneamente, o lucro líquido ajustado esperado para 2026 foi reduzido de R$ 22-26 bilhões para R$ 18-22 bilhões. A MFB foi revisada para cima (de 4-8% para 7-11% de crescimento), mas o ganho marginal de margem não compensa o avanço nas perdas. O RSPL encerrou o trimestre em 7,3%, contra 16,7% em março de 2025, nível que começa a questionar a atratividade relativa do banco frente ao custo de capital estimado pelo mercado.
O capital permanece adequado — o Índice de Basileia de 14,23% e o Capital Principal de 11,59% estão dentro dos limites regulatórios — e a carteira de crédito como um todo ainda cresce, puxada por PF e Agro. A questão relevante para os próximos trimestres é a velocidade com que o ciclo de renegociação agro se estabiliza e o custo do crédito converge para patamares mais normalizados. Enquanto esse processo não se conclui, o retorno do banco deve permanecer sob pressão, especialmente porque a carteira PJ segue em contração e não há um motor de receita alternativo com força suficiente para compensar o volume de provisões ainda necessário.
Conclusão do Analista
O Banco do Brasil é um dos melhores bancos no país, conciliando uma carteira de crédito defensiva com uma rentabilidade crescente. Seus últimos anos foram até melhores do que os Bancões privados, batendo recorde de lucro de forma consecutiva.
É verdade que, por ser estatal, as ações do Banco sempre serão negociadas mais descontadas. Porém, esse desconto está muito grande, levando em consideração a atual fase do BB. Por isso, recomendamos a compra das ações BBAS3.