A **JBS N.V.** atravessou o terceiro trimestre de 2025 em um ambiente macroeconômico ainda desafiador, marcado por custos elevados de insumos, volatilidade cambial e ciclos pecuários adversos em algumas geografias.
Do ponto de vista setorial, o trimestre foi impactado principalmente pela restrição de oferta de gado nos Estados Unidos, o que manteve os preços do boi em níveis historicamente elevados e pressionou margens na divisão de carne bovina norte-americana. Em contrapartida, proteínas mais acessíveis, como frango e suínos, continuaram apresentando demanda resiliente, beneficiando unidades focadas em produtos de maior valor agregado.
A percepção da diretoria foi de cauteloso otimismo. Embora reconheça o impacto negativo do ciclo do gado nos Estados Unidos e a compressão de margens em algumas operações, a gestão reforçou confiança na capacidade de adaptação operacional, no portfólio multiproteínas e na disciplina financeira ao longo do ciclo.
Confrontando o discurso da companhia com dados do setor, observa-se coerência na narrativa apresentada. Relatórios de associações internacionais confirmam a escassez de gado na América do Norte e a manutenção de preços elevados, enquanto o consumo global de proteínas segue sustentado, especialmente em mercados emergentes, o que reforça a tese de resiliência da demanda.
No campo operacional, a JBS reportou crescimento de volumes e preços em diversas unidades. A JBS Brasil apresentou forte expansão de vendas impulsionada por exportações, enquanto a Seara atingiu o maior volume exportado de sua história, mesmo diante de restrições temporárias em mercados relevantes, que foram mitigadas por redirecionamento ágil da produção.
Em termos financeiros, a receita líquida consolidada atingiu US$22,6 bilhões no 3T25, crescimento de 13% na comparação anual. Esse avanço reflete expansão em todas as unidades de negócio, evidenciando a força da plataforma global da companhia, ainda que com diferentes dinâmicas de rentabilidade entre regiões.
O _EBITDA_ ajustado IFRS somou US$1,8 bilhão, queda de aproximadamente 15% em relação ao mesmo período do ano anterior, com margem de 8,1%. A retração decorre principalmente da pressão de custos na operação de carne bovina na América do Norte e da redução de margens na Seara, parcialmente compensadas pelo bom desempenho da Austrália e da Pilgrim’s Pride.
O lucro líquido atribuível aos acionistas foi de US$581 milhões, recuo de 16% na comparação anual, enquanto o ROE dos últimos doze meses alcançou expressivos 23,7%. Esse indicador reforça a elevada rentabilidade do capital, mesmo em um trimestre de margens mais pressionadas.
No endividamento, a alavancagem medida por dívida líquida/_EBITDA_ ajustado encerrou o trimestre em 2,39x, em linha com o alvo estratégico de longo prazo da companhia. O fluxo de caixa livre foi mais contido no período, refletindo maior consumo de capital de giro, sobretudo por aumento de estoques associado à inflação de custos e à dinâmica operacional global.
Como perspectiva, a administração indicou que os próximos trimestres ainda devem refletir desafios no ciclo do gado nos Estados Unidos, mas com expectativa de gradual normalização ao longo do tempo. A diversificação geográfica, a expansão em produtos de maior valor agregado e a disciplina financeira seguem como pilares centrais para atravessar o ciclo e sustentar a geração de valor ao acionista.
Conclusão do Analista
A JBS consolidou-se como a maior empresa global de proteínas, com um modelo de negócios altamente diversificado por geografia e tipo de proteína, o que confere resiliência operacional ao longo dos ciclos. A escala, a capilaridade logística e o portfólio de marcas fortes continuam sendo diferenciais competitivos difíceis de replicar, além de uma estratégia operacional que suaviza impactos adversos de cada cadeia produtiva.
Entretanto, a recente reorganização societária e a migração para o mercado internacional trouxeram uma deterioração relevante na governança corporativa, com concentração excessiva de poder no controlador e menor alinhamento com acionistas minoritários. Mesmo com parte desses riscos já refletidos no preço, entendemos que a estrutura atual não é compatível com a filosofia de investimentos da Simpla, o que justifica uma postura mais cautelosa em relação ao ativo.